Essa mulher nunca sentiu dor ou ansiedade na vida, e agora os cientistas sabem por quê

Jo Cameron, 71 anos, nunca sentiu dor na vida. Ela comparou o parto de seu primeiro filho a “uma cócega”. E os cientistas acreditam que agora sabem por quê.

Pesquisadores da Universidade College London (Reino Unido) atribuíram
a vida praticamente indolor de Cameron a uma mutação em um gene não
identificada anteriormente.

A descoberta poderia eventualmente levar ao desenvolvimento
de um novo tratamento para a dor.

A mutação também pode estar ligada ao motivo pelo qual
Cameron nunca teve ansiedade ou medo durante sua vida, e pelo qual seu corpo se
cura rapidamente.

Genes e dor

Os cientistas têm documentado estudos de casos de indivíduos
que sofrem pouca ou nenhuma dor há quase 100 anos.

Mas a mutação genética que parece ser responsável pela falta
dessa sensação em Cameron não havia sido previamente identificada.

“Cada uma dessas mutações nos ensina algo e aponta para um
gene em particular como um alvo em potencial para novos analgésicos mais
eficazes”, disse o neurologista Dr. Stephen G. Waxman, que não esteve envolvido
nesse caso, mas também estuda pessoas que têm mutações raras em relação à sensibilidade
à dor.

Como assim?

A sequência de eventos que levou os cientistas a investigarem
os genes de Cameron começou há cerca de cinco anos. Ela vivia feliz com seu
marido nas margens do Lago Ness, na Escócia, quando, depois de uma operação, um
médico ficou perplexo que ela não estava sentindo dor e não queria analgésicos.

O Dr. Devjit Srivastava, consultor em anestesia e medicina
da dor em um hospital do National Health Service no norte da Escócia, resolveu
lhe fazer algumas perguntas subsequentes, descobrindo que Cameron era incomum.

Aos 65 anos, ela precisou fazer uma cirurgia no quadril.
Como ela não sentia dor, não notou que algo estava errado até que ele estivesse
severamente degenerado. Cortes, queimaduras, fraturas – estas também nunca
doeram na mulher. De fato, muitas vezes seu marido tinha que enxergar sangue
para ela perceber que tinha se machucado.

O Dr. Srivastava encaminhou-a para o Grupo de Nocicepção da
Universidade College London, uma equipe focada em abordagens genéticas para
entender a biologia da dor e do toque. Quando um dos pesquisadores do grupo, o
Dr. James Cox, inspecionou seu perfil genético, concluiu que não se parecia com
o de outros indivíduos que também viviam sem dor.

FAAH-OUT

Eventualmente, a equipe encontrou o que estava procurando em
um gene chamado de “FAAH-OUT”. Todos nós temos esse gene, mas, em Cameron, a
parte da “frente” está faltando. Um exame de sangue confirmou esta hipótese.

Cameron disse que ficou chocada com o interesse em seu caso.
Até sua conversa com o Dr. Srivastava, a dor não era algo sobre a qual ela
pensava. Talvez tenha ajudado que, embora ela se queimasse e se cortasse com
bastante frequência, seus ferimentos raramente deixavam cicatrizes – outra
coisa que os cientistas acreditam estar ligada à mutação.

Vários artigos foram escritos sobre pais de crianças com
condições semelhantes. Muitos vivem com medo de que, sem dor, seus filhos não
aprendam a evitar se machucar. Os pais de Cameron nunca tiveram essa preocupação.
Ela suspeita que isso pode ser porque ela herdou a mutação de seu pai. Ele também
nunca precisou de analgésicos.

Ansiedade

Os cientistas também estão intrigados com o nível de
ansiedade extraordinariamente baixo de Cameron. Em um questionário sobre
transtorno de ansiedade, ela marcou 0 de 21. A mulher diz que não se lembra de
ter se sentido deprimida ou com medo alguma vez na vida.

Em retrospecto, ela vê como sua disposição genética pode
tê-la ajudado no trabalho. Depois de anos como professora primária, ela decidiu
trabalhar com pessoas com deficiências mentais graves. Comportamento errático e
agressivo nunca a irritou.

Vale notar que, embora essa mutação possa soar como um
sonho, há desvantagens. Por exemplo, Cameron é bastante esquecida, propensa a
perder as chaves e a linha de pensamento no meio da frase. Também nunca sentiu
aquela sensação gostosa de “adrenalina” da qual as pessoas falam.

Próximos passos

A partir de agora, os pesquisadores focarão em tentar
entender melhor como o FAAH-OUT funciona para que possam projetar uma terapia
gênica ou outra semelhante em torno dele.

Transformar uma descoberta desse tipo em um tratamento real
de dor ou ansiedade requer muitos passos, anos e milhões de dólares. Mas é possível.

Como um lembrete de como um indivíduo com uma composição
genética incomum pode moldar o futuro da medicina, Dr. Waxman apontou para as
estatinas, “desenvolvidas em grande parte com base em famílias incrivelmente
raras, onde todo mundo estava tendo ataques cardíacos em seus 20 anos”.

“Estou razoavelmente confiante de que as lições que
estamos aprendendo com os genes envolvidos na dor levarão ao desenvolvimento de
uma classe totalmente nova de analgésicos”, concluiu.

Um artigo sobre a pesquisa foi publicado na revista científica The British Journal of Anesthesia. [NYTimes]



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