Experimento com cetamina descobre fenômeno cerebral jamais observado

Cientistas do departamento de fisiologia, desenvolvimento e neurociência da Universidade de Cambridge (Reino Unido) observaram um fenômeno cerebral novo em um experimento com a droga cetamina.

Cessação de atividade cortical

A cetamina (também conhecida como ketamina e vendida sob o nome comercial Ketalar) é um medicamento utilizado principalmente para induzir e manter a anestesia.

Os pesquisadores britânicos administraram doses da substância a ovelhas durante um estudo sobre a doença de Huntington, uma condição neurológica hereditária, o que lhes permitiu observar como os efeitos entorpecentes e dissociativos da droga funcionam no cérebro.

Em determinado estágio do experimento, quando os animais receberam doses altas de cetamina, as leituras por eletroencefalografia (EEG) de sua atividade cerebral cortical pareceram indicar que essa atividade havia desligado completamente, de repente.

Essa cessação completa da atividade cortical, um fenômeno nunca descrito antes, durou vários minutos, até que a atividade cerebral das ovelhas aumentou novamente.

“Não foi apenas atividade cerebral reduzida. Após a alta dose de cetamina, o cérebro dessas ovelhas parou completamente. Nunca vimos isso antes. Poucos minutos depois, seus cérebros estavam funcionando normalmente novamente – era como se tivessem sido desligados e ligados”, disse a neurobióloga Jenny Morton, uma das autoras do estudo, ao portal Science Alert.

Cetamina: um buraco inconsciente

O objetivo dos pesquisadores não era analisar os efeitos da cetamina, mas sim usá-la como uma ferramenta para investigar a atividade cerebral em ovelhas com e sem o gene da doença de Huntington.

No entanto, foi impossível ignorar as descobertas surpreendentes feitas através da análise da atividade cerebral de ovelhas saudáveis sob o efeito da droga.

Os resultados mostram o quão pouco sabemos sobre como essa substância age no cérebro, apesar de ela ter sido sintetizada pela primeira vez nos anos 1960 e ser usada há décadas como analgésico e sedativo para pacientes humanos e animais.

Recentemente, a substância também se mostrou promissora no tratamento de uma série de outras condições, incluindo depressão, transtorno de estresse pós-traumático e enxaqueca.

Por fim, a cetamina também é uma famosa droga recreativa que, em doses consideráveis, é capaz de induzir um estado fortemente dissociativo e às vezes catatônico, “comparado a uma experiência de quase morte”, conforme explicam os cientistas do novo estudo. Essa “viagem” causada pela droga é chamada por seus usuários de “K-hole”, ou “buraco K”, devido à sensação de cair num buraco.

“Os efeitos subjetivos incluem distorções perceptivas, sensações de flutuação, sonhos ou ilusões vívidas, distorção da sensação de tempo e espaço e alterações no estado de humor e na consciência corporal. Em uma dose suficientemente alta, tanto a consciência do eu e do ambiente quanto as interações com os outros ficam profundamente prejudicadas”, disseram os pesquisadores.

O estudo

O estudo britânico durou vários meses, durante os quais as ovelhas receberam doses variadas de cetamina, começando com a mais baixa (3 miligramas por quilograma de peso corporal) e terminando na mais alta (24 miligramas por quilograma), o limite do efeito anestésico da droga e início da sua utilização para fins recreativos.

Independentemente da dose, as leituras cerebrais dos efeitos da droga nas ovelhas costumavam exibir três fases sequenciais: primeiro um período de sedação (anestesia), seguido por um período de consciência dissociativa sem movimento voluntário, seguido por um período aparentemente de alerta completo, embora ainda sem movimento voluntário.

Na fase da consciência dissociativa, conforme os animais saíam da sedação, suas leituras cerebrais indicavam estados oscilatórios nos quais a atividade de todo o córtex alternava entre rajadas de oscilações de baixa e alta frequência.

Embora seja impossível determinar a experiência subjetiva das ovelhas, utilizando o perfil clínico e psíquico da administração de cetamina em humanos, os pesquisadores creem que essa “oscilação das oscilações” seja subjacente ao estado dissociativo.

Na dose mais alta aplicada, essa resposta foi ainda mais notável, com a atividade cerebral cessando completamente em 5 das 6 ovelhas do experimento, um fenômeno que possivelmente representa o “buraco K”.

“Até onde sabemos, este é o primeiro relatório de tal efeito. Parece provável que a cessação total da atividade cortical seja subjacente ao fenômeno conhecido como buraco K”, disseram os cientistas.

Cessação da atividade usual, não parada completa

Durante o “buraco K”, a atividade cerebral não para completamente. Caso contrário, os animais teriam parado de respirar.

Segundo Morton, ao invés disso, as leituras de eletroencefalograma apenas refletem um estado muito estranho de cessação da atividade elétrica normal do cérebro, aquela que podemos detectar em circunstâncias normais.

“O cérebro não está morto nem danificado”, esclarece.

Dentro de poucos minutos, o “buraco” some, e as ovelhas voltam a exibir atividade cerebral consistente com outras fases da droga quando administrada em doses menores.

Próximos passos

Segundo os pesquisadores, a exploração dos mecanismos fisiológicos de drogas como a cetamina pode nos ajudar a entender melhor como o cérebro funciona como um todo, o que é importante no estudo de várias doenças neurológicas, como a esquizofrenia.

A compreensão de como diferentes regiões do cérebro se engajam em situações diversas é fundamental para entender a função das redes neurais. As alterações provocadas por substâncias como a cetamina podem funcionar como uma ferramenta para o estudo de tais redes, tanto em cérebros normais quanto em cérebros atingidos por distúrbios cognitivos e psiquiátricos.

As descobertas foram publicadas em um artigo na revista científica Scientific Reports. [ScienceAlert]



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