Memórias artificiais foram criadas com sucesso

Um novo estudo do Hospital for Sick Children (Canadá), em colaboração
com a Universidade de Boston e Universidade de Harvard (EUA), conseguiu criar
memórias totalmente artificiais em animais pela primeira vez.

A pesquisa é formidável e um pouco assustadora, uma vez que demonstra a possibilidade de manipular circuitos cerebrais para gerar memórias totalmente separadas de narrativas individuais e na completa ausência de uma experiência real.

Indistinguível

Os pesquisadores utilizaram engenharia reversa para obter o
resultado desejado.

Primeiro, mapearam os circuitos cerebrais que formam uma
memória natural. Em seguida, estimularam as células cerebrais de ratos transgênicos
utilizando os padrões da memória natural.

Ao fazer isso, os cientistas efetivamente conseguiram criar
uma memória artificial, que foi retida e rememorada de forma indistinguível à
natural.

Os circuitos cerebrais que normalmente respondem a experiências específicas puderam ser artificialmente estimulados e ligados entre si nessa memória artificial, que por sua vez pôde ser provocada por pistas sensoriais adequadas no ambiente real.

Metodologia

No caso deste estudo, a memória natural foi a associação de um
odor específico, o de flores de cerejeira, a um choque nos pés, de forma que os
animais aprenderam a evitá-lo.

Para criar a associação, os pesquisadores utilizaram uma
técnica sofisticada chamada de optogenética. Trata-se de proteínas sensíveis à
luz usadas para estimular neurônios específicos através de fibras ópticas
implantadas cirurgicamente.

Os cientistas modificaram os ratos para produzir uma
proteína em nervos olfatórios sensíveis à acetofenona (o químico que dá origem
ao perfume da flor de cerejeira). Ao associar o choque elétrico com a
estimulação optogenética dos nervos olfatórios sensíveis à acetofenona, os
pesquisadores basicamente ensinaram os animais a ligar a dor a este odor em
particular.

Para imitar a dor nos ratos, os pesquisadores estimularam vias
nervosas específicas que levam a uma estrutura conhecida como área tegmentar
ventral (ATV), ligada à natureza aversiva do choque no pé em estudos anteriores.
Um vírus levou proteínas sensíveis à luz até à ATV.

Ratos que receberam memórias artificiais dessa associação evitaram o odor de flores de cerejeira, respondendo a um cheiro que nunca haviam encontrado e fugindo de um choque que nunca haviam recebido.

Aplicações

Os resultados têm amplas implicações sociais e éticas,
afinal de contas, a memória é a fonte de toda a história pessoal de uma pessoa.

É claro, existem bons motivos para se pesquisar este tipo de
coisa – indivíduos podem querer recuperar memórias perdidas em acidentes, ou aqueles
sofrendo de transtorno de estresse pós-traumático podem desejar apagar certas
lembranças. Isso sem contar as oportunidades de tratamento de doenças ligadas à
memória, como o Alzheimer.

Além disso, por ser este o primeiro estudo a criar uma
memória completamente artificial, pode ajudar os cientistas a compreender
melhor como memórias se formam e podem ser manipuladas.

Nos experimentos, a estimulação elétrica de regiões cerebrais específicas também ativou outras regiões cerebrais conhecidas por estarem envolvidas na formação da memória, incluindo a amígdala basolateral.

Ainda estamos muito longe

Todos os avanços são interessantes, mas é preciso reconhecer
que os pesquisadores ainda estão muito longe de criar memórias artificiais em
seres humanos.

Para começo de conversa, não somos animais transgênicos como
os ratos utilizados no estudo, de forma que todos os implantes cirúrgicos e injeções
viriais não serão aplicados em pessoas tão logo.

Apesar disso, existem diversos grupos de pesquisa e governos
interessados na manipulação da memória humana e, conforme eles avançam em seus
testes, precisaremos discutir as implicações éticas e consequências de tais abordagens.

Um artigo sobre o estudo foi publicado na revista científica Nature. [ScientificAmerican]



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