Tipo de neurônios envolvidos na gagueira são identificados

Pesquisadores dos Institutos Nacionais da Saúde dos EUA, em colaboração
com cientistas da Universidade de Washington, descobriram que uma perda de neurônios
chamados astrócitos pode estar associada com a gagueira.

Essa condição pode ser debilitante para muitas pessoas, e os
cientistas já vem tentando destilar os possíveis déficits neurológicos envolvidos
nela há um tempo. O novo estudo abre possibilidades para novas intervenções terapêuticas.

Modelos roedores

A gagueira é uma condição caracterizada por pausas e repetições
ou sons prolongados, de sílabas ou palavras, que interrompem o fluxo regular do
discurso. É mais comum em crianças, que normalmente superam a condição quando
crescem. No entanto, 1 a cada 4 pessoas sofrem com gagueira pelo resto da vida.

O novo estudo foi feito com ratos, modificados para ter uma
versão do gene GNPTAB, previamente ligado à condição. Os ratos com a mutação apresentaram
longas pausas em seu fluxo de vocalizações, e nenhum outro sintoma, confirmando
a teoria de que o gene está envolvido na gagueira.

Pesquisas anteriores haviam identificado diferenças nos cérebros
de pessoas com e sem gagueira. Algumas destas pesquisas também revelaram problemas
estruturais e funcionais semelhantes na mesma região do órgão que foi abordada no
novo estudo com ratos.

Enquanto as imagens cerebrais são importantes, é complicado definir
se os efeitos vistos são a causa ou a consequência da gagueira nas pessoas. “Ao
adotar uma abordagem genética, pudemos começar a decifrar a neuropatologia da
gagueira, primeiro no nível molecular, identificando mutações genéticas e,
agora, no nível celular”, disse um dos pesquisadores do estudo, Dennis Drayna.

Resultados

O que os cientistas notaram foi uma perda de astrócitos, mas
não de outros tipos de neurônios, nos cérebros dos ratos com a mutação. Astrócitos
desempenham papéis críticos de suporte a células nervosas, realizando diversas
funções como supri-las com oxigênio e nutrientes.

A perda foi mais acentuada no corpo caloso, uma parte do
cérebro que liga os dois hemisférios – com 200 milhões de fibras, ele permite a
comunicação entre a parte direita e esquerda do órgão, ajudando a integrar
sinais em processos que envolvem ambos os hemisférios, como coordenação física
e uso da linguagem.

Os pesquisadores também detectaram um volume reduzido do
corpo caloso nos ratos com a mutação.

Por fim, eles confirmaram que o problema era nos astrócitos
ao inserir a mutação em outras células cerebrais e não verem nenhuma consequência
nas vocalizações.

Próximos passos

O problema parece estar no que os cientistas chamam de “tráfico
intracelular”, o caminho que as células tomam para mover proteínas e outros
componentes para seus locais corretos.

Defeitos no tráfico celular, como este dos astrócitos, têm
sido ligados a outros distúrbios neurológicos como esclerose lateral
amiotrófica, Parkinson e Alzheimer.

Por enquanto, novas pesquisas precisam confirmar que a
gagueira em pessoas com mutações no gene GNPTAB de fato deriva de uma perda de
astrócitos no cérebro. Sendo este o caso, os cientistas podem desenvolver um
tratamento para gagueira persistente visando as vias moleculares e celulares
associadas à condição.

“A identificação de alterações genéticas, moleculares e
celulares subjacentes à gagueira levou-nos a compreender a gagueira persistente
como um distúrbio cerebral. Talvez ainda mais importante, identificar a região
do cérebro e as células envolvidas abre oportunidades para novas intervenções
para a gagueira – e possivelmente outros distúrbios da fala”, resumiu Andrew
Griffith, outro autor do estudo.

Um artigo sobre a pesquisa foi publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences. [ScienceDaily]



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