Transplante de fezes pode reduzir quase 50% dos sintomas do autismo em crianças: estudo

De acordo com um novo estudo da Universidade Estadual do Arizona (EUA), transformar o ambiente microbiano no intestino de crianças diagnosticadas com autismo pode aliviar significativamente a gravidade dos sintomas da condição.

Após receberem uma forma de terapia de transplante fecal, os
participantes não apenas experimentaram menos problemas intestinais, como
continuaram a mostrar melhorias contínuas nos sintomas do autismo após o
procedimento – um avaliador profissional encontrou uma redução de 45% nos
principais deles (linguagem, interação social e comportamento) dois anos após o
transplante.

A técnica utilizada pelos pesquisadores Rosa
Krajmalnik-Brown, James Adams e Dae-Wook Kang é conhecida como “Microbiota
Transfer Therapy” (terapia de transferência de microbiota ou MTT), um tipo
especial de transplante fecal originalmente desenvolvido pelo gastroenterologista
australiano Dr. Thomas Borody.

A importância da microbiota

Atualmente, tratamentos eficazes para autismo incluem
terapia comportamental, medicamentos psiquiátricos e abordagens dietéticas e
nutricionais. No entanto, nenhum tratamento médico foi aprovado para tratar os
principais sintomas da condição, como dificuldades de comunicação social e comportamentos
repetitivos.

Uma área promissora de pesquisa envolve a microbiota intestinal,
que é a coleção de micróbios que vive em nossos intestinos e nos ajuda de
muitas maneiras, incluindo a digestão e o funcionamento do sistema imunológico.

Pesquisas recentes sugerem que nossas microbiotas intestinais
também afetam a comunicação cerebral e a saúde neurológica. Em todo o mundo, cientistas
têm estudado a ideia de que mudanças na microbiota intestinal podem ser
responsáveis ​​por desencadear uma vasta gama de doenças.

“Muitas crianças com autismo têm problemas
gastrointestinais, e alguns estudos, incluindo os nossos, descobriram que essas
crianças também têm sintomas piores relacionados ao autismo”, explicou
Krajmalnik-Brown. “Em muitos casos, quando você é capaz de tratar esses
problemas gastrointestinais, seu comportamento melhora”.

Intestino x autismo

Aproximadamente 30 a 50% de todas as pessoas com autismo têm
problemas gastrointestinais crônicos, principalmente constipação e/ou diarreia.
O desconforto e a dor podem causar irritabilidade, diminuição da atenção e da
aprendizagem e impactar negativamente o comportamento.

Um estudo anterior com antibiótico (vancomicina) havia
encontrado grandes melhorias temporárias nos sintomas gastrointestinais e de
autismo, mas os benefícios foram perdidos algumas semanas após o tratamento ter
sido interrompido, apesar do uso posterior de probióticos vendidos sem receita
médica.

Krajmalnik-Brown, Kang e Adams mostraram que, ao transferir
uma microbiota saudável para indivíduos sem certas bactérias intestinais, é
possível “doar” um grupo mais diversificado de bactérias para o
paciente e melhorar a saúde intestinal e os sintomas do autismo a longo prazo.

“Estamos encontrando uma conexão muito forte entre os
micróbios que vivem em nossos intestinos e sinais que viajam para o
cérebro”, disse Krajmalnik-Brow. “Dois anos depois, as crianças estão
ainda melhores, o que é incrível”.

MTT

O transplante de microbiota fecal (MTT) foi inicialmente
desenvolvido por Borody. Com base em sua experiência com seus pacientes, Borody
liderou um projeto de tratamento clínico usado para este estudo, em conjunto
com os cientistas da Universidade do Arizona.

A abordagem MTT envolve 10 semanas de tratamento, incluindo
pré-tratamento com vancomicina, limpeza intestinal, supressor do ácido do
estômago e transferência de microbiota fecal diariamente durante sete a oito
semanas.

No estudo inicial, publicado na revista Microbiome em 2017, o protocolo de tratamento usado em 18 crianças entre 7 e 16 anos pareceu ser uma “abordagem promissora” para alterar a microbiota intestinal e melhorar sintomas gastrointestinais e comportamentais nos pacientes com o espectro do autismo.

Essas melhorias persistiram por pelo menos oito semanas após
o término do tratamento, sugerindo um impacto de longo prazo.

Acompanhamento

No início do estudo, crianças com autismo apresentavam menor
diversidade em seus respectivos micróbios intestinais do que crianças sem a condição,
e não possuíam certas cepas de bactérias úteis, como Bifidobacteria e
Prevotella. O tratamento com MTT aumentou substancialmente a diversidade
microbiana e a presença de bactérias úteis.

Um novo estudo, realizado após dois anos, mostrou que a diversidade continuou aumentando e a presença de micróbios benéficos permaneceu. Este foi publicado na revista Scientific Reports.

Uma avaliação profissional revelou uma redução de 45% nos
sintomas de autismo em comparação com a linha de base nas crianças. Os
pesquisadores observam que, embora possa haver algum efeito placebo, muito
desse efeito parece ser real.

No início do estudo, 83% dos participantes foram
classificados com autismo “grave”. No final do estudo, apenas 17%
eram “graves”, 39% eram “leves/moderados” e 44% estavam abaixo
do ponto de corte para autismo leve. Além disso, os pais da maioria dos
participantes relataram “uma melhora lenta, mas constante, nos sintomas
centrais” do autismo.

Próximos passos

Devido à natureza aberta do estudo e ao pequeno tamanho da
amostra utilizada, mais pesquisas são necessárias para verificar a utilidade do
MTT como terapia.

O estudo inicial envolveu uma estimativa de “primeira
geração” quanto à dose ideal e duração do tratamento, suficiente para 90%
das crianças terem benefícios substanciais. A equipe está trabalhando agora na
otimização dessa dosagem para tentar melhorar ainda mais os benefícios, e determinar
quando doses de reforço podem ser necessárias.

Todas as famílias envolvidas completaram as avaliações de
acompanhamento, e o tratamento foi geralmente bem tolerado com efeitos adversos
mínimos.

“Compreender quais micróbios e produtos químicos produzidos pelos micróbios estão conduzindo essas mudanças comportamentais está no centro do nosso trabalho”, concluiu Krajmalnik-Brown. [MedicalXpress, ScienceAlert]



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